cultura e entretenimento

segunda-feira, outubro 24, 2005

Entrevista com Ariano Suassuna



Uma tarde com Ariano Suassuna
por Fernanda Garrafiel e Glaucia Lewicki - Jornal do Brasil

Eu estava navegando pela internet e encontrei no site do Jornal do Brasil uma entrevista bem legal com o Ariano Suassuna. Então, eu capturei um fragmento da entrevista, no qual ele fala sobre a diferença entre dois "Brasils": um real e outro oficial.
É um pouquinho grande, mas acho q vale a pena ler.
Fale um pouco da distinção entre o Brasil Real e o Brasil Oficial.
BRASIL REAL X BRASIL OFICIAL

Os pensadores que Euclides da Cunha cita são péssimos, o que provao grande escritor que ele era. Não é pela filosofia, pelo pensamento,pela ciência, que a obra dele sobreviveu. É pelo trabalho do grande artista que ele foi.

Esta distinção foi feita por Machado de Assis em 1870, em um artigo para um jornal. O país Real é bom, e reserva os melhores instintos. O país oficial é caricato e burlesco. Se ele vivesse hoje, ele veria que a distinção continua a mesma. O país real continua bom e o país oficial piorou. No século 19, o Brasil queria imitar a França, que pelo menos é um país latino. Agora, somos caricatamente americanizados. Eu acho essa distinção fundamental. Os dois maiores escritores brasileiros do século XIX são Machado de Assis e Euclides da Cunha e é a partir da obra dos dois que temos que refletir sobre o Brasil. Euclides da Cunha, tinha uma visão mecanicista e positivista da história, herdada da da falsa ciência social européia do século XIX. Isso foi o que envelheceu da obra de Euclides da Cunha. Os pensadores que ele cita são péssimos, o que prova o grande escritor que ele era. Não é pela filosofia, pelo pensamento, pela ciência, que o livro dele sobreviveu. É pelo trabalho do grande artista que ele foi. A linguagem que muitos têm como áspera é a única linguagem capaz de reerguer aquele mundo que ele queria reconstruir, numa obra que tornasse esse universo acessível a outras pessoas. A única linguagem capaz de recontar do ponto de vista do país real o episódio de Canudos. Em Canudos tentou-se reconstruir uma comunidade baseada nos valores do Brasil Real. O próprio Antonio Conselheiro era um profeta saído do Brasil Real. E Euclides da Cunha saiu do Brasil oficial e foi tentar entender o Brasil Real. Euclides da cunha diz: Nós brasileiros nos aliamos pela nossa terra, deslumbrados pelas miragens de uma civilização de empréstimo, que nós recebemos embaladas por dentro dos transatlânticos – imagine se ele conhecesse a América hoje, com a internet – e que nos acotovela na rua do Ouvidor. Nós nos aliamos deixando de lado e desprezando o sertão onde se desata a base verdadeira da nossa nacionalidade. Ele criou dois emblemas: o da rua do Ouvidor, que tinha a imagem falsificada e falsificadora do país oficial e o emblema do sertão onde estava o país real, a rocha vida da civilização brasileira. Aí aconteceu um fato curioso: Euclides trabalhava em um jornal em São Paulo e foi convidado a fazer uma matéria jornalística sobre a situação em Canudos. Ele saiu do lado da república positivista e capitalista, como um cruzado da república para acabar com o que ele considerava os últimos vestígios da barbaridade sertaneja. Quando chegou lá, ele que tinha o caráter de um homem de bem, simpatizou com a causa deles. Quando ele viu o crime que a república estava cometendo contra os sertanejos, mudou de lado e abandonou a república. Mas a conversão foi recente demais. Ele ficou perturbado e achou que a única parcela do Brasil Real que existia era o sertanejo e ignorou a humanidade das favelas. Ele considerou todo o Brasil urbano como sendo oficial.. E eu, influenciado por Euclides da Cunha passei muito tempo pensando desse jeito.. Como eu sou um sertanejo, eu não enxergava que na cidade, quando a polícia cerca uma favela, é o povo do Brasil Oficial cercando o Brasil Real, cercando aqueles arraiais de Canudos. Este Brasil Real urbano também tem que ser levado em conta quando se faz esta distinção. Euclides da Cunha não levou, infelizmente. Mas é muito fácil hoje, eu, colocar os óculos dele e enxergar mais longe.